sábado, 27 de outubro de 2007

Tuhami e Crapanzano


Vincent Crapanzano, Tuhami – Portrait of a Moroccan, Chicago: University of Chicago Press, 1980.

História de vida e etnografia. São esses os dois temas abordados por Crapanzano em seu retrato de Tuhami, um marroquino que trabalha na fabricação de tijolos, mora num pequeno cômodo próximo à olaria, é casado com um demônio/mulher (she-demon/ um demônio feminino?), com patas de camelo, chamada ‘A’isha Qandisha, com quem Tuhami mantém uma relação de submissão. Seu dia-a-dia consiste em romarias a santuários, nos quais ele – assim como outros romeiros, muçulmanos – costumam dormir, para sonhar – os sonhos são mensagens enviadas pelos santos que vivem nos seus túmulos.
O livro é a história de vida de Tuhami contada a partir de seu encontro com Crapanzano. O antropólogo foi para o Marrocos, na década de 1960, por conta de seu interesse por ‘A’isha Qandisha já que já havia estudado a Hamadsha, uma irmandade especializada em rituais de cura (baseados no transe e na auto-flagelação) para pessoas que tenham sido atacadas/possuídas por ela. Esse não é o caso de Tuhami: ele é um conhecedor da Hamadsha, mas não é membro dela; ele não é possuído pela, mas casado com ‘A’isha Qandisha. Por essa condição de outsider, Crapanzano se interessou por Tuhami.
Organização do livro
Descrito como um experimento, o livro está dividido em sete partes: uma introdução, um epílogo e cinco capítulos. Os capítulos um, três e cinco são compostos basicamente pelos diálogos das entrevistas feitas pelo antropólogo: suas perguntas e as respostas de Tuhami, repletas de sonhos e histórias que parecem contos de fadas narrados na forma de recitações/declamações.
No capítulo dois, Crapanzano analisa aquilo que seria a estrutura/armação (“framework”) da cultura marroquina: suas relações sociais, o significado da romaria, a relação entre humanos, santos e demônios e o “uso individual de símbolos culturais e rituais” (pág. xii). O capítulo quatro discute pesquisa de campo, a colaboração de um assistente de pesquisa e o encontro etnográfico com Tuhami. As principais referências teóricas são Sartre – principalmente uma biografia sobre Jean Genet intitulada “Saint Genet: Actor and Martir” (1964) -, Freud, Lacan e Simmel.
A abordagem de Crapanzano é fortemente psicanalítica. O autor propõe entender, a partir do que Tuhami lhe conta, como ele articula, através de símbolos, o seu mundo, e se situa nele: “I look at the way in which Tuhami makes use of the particular idiom at his disposal to articulate his own experience, including his personal history within our negotiations of reality. With less perspective perhaps, certainly with greater resistance, I look at the use I make of my own idiom within our negotiations”. (pág. xi e xii).
Negociação. O encontro etnográfico seria um processo de negociação e sua dinâmica precisa ser considerada/explicitada para que o texto etnográfico não resulte numa pintura estática e homogênea da “cultura de um povo” ou mesmo da história de uma pessoa.
Imaginação e realidade
Uma das questões negociadas entre Crapanzano e Tuhami é a própria noção de realidade e sua relação com a imaginação. O que fazer quando uma pessoa afirma ser casada com um demônio? Quando ela conversa com santos? Descreve suas alucinações e visões? Conta uma história fantástica sobre ter sido adotada por um pachá e ter vivido entre as mulheres de seu harém? Repete as mesmas histórias, sem que nenhuma versão seja igual a outra?
A história de vida de Tuhami foi escrita, por Crapanzano, a partir do que ele lhe contou. É por esse caminho – da ênfase naquilo que Tuhami lhe conta e não do que outros lhe contam sobre Tuhami – que o antropólogo aproxima a história de vida da autobiografia – trata-se de uma narração, uma perfomação passível de invenção. São histórias e mais histórias repetidas por Tuhami, numa temporalidade mítica, e que resistem à uma integração, à construção de um fio condutor. E essa dimensão inventiva é uma das mais evidentes em Tuhami: trata-se de um contador de histórias. São muitas as passagens em que Crapanzano afirma não saber se a história contada por Tuhami é real ou imaginada, se se trata de uma fantasia, um sonho ou de algo que “realmente” aconteceu. Durante as entrevistas, é comum Crapanzano perguntar por uma informação (um fato, uma pessoa do passado, num esforço de conferir uma certa congruência ao seu relato, buscando estabelecer uma cronologia para os acontecimentos) e Tuhami responder contando uma história ou um sonho. Além das versões completamente diferentes sobre um mesmo acontecimento, personagens que mudam de nome, ou que não se sabe se é um homem, uma mulher, um santo, um demônio...
Crapanzano discute, então, a necessidade de se considerar o modo como Tuhami estrutura/constrói sua narrativa, tanto no que diz respeito à sua armação interna quanto em relação ao encontro etnográfico, à situação posta pela entrevista. Essas duas dimensões precisam, ainda, ser consideradas em relação aos diferentes idiomas culturais de ambos – embora Crapanzano, nesse caso, enfatize mais a cultura marroquina. Afirma o autor: “The subject of Tuhami’s tale is ontologically different from the subject of those tales with which we in the West are familiar. Generic differences are not simply formal differences. They are cultural constructs and reflect those fundamental assumptions about the nature of reality, including the nature of the person and the nature of language, that are considered, if they are considered at all, self-evident by the members of any particular cultural tradition. The recognition of such differences, of the possibility of another more or less successful way of constituting reality, is always threatening; it may produce a sort of epistemological vertigo and demand a position of extreme cultural relativism (…). Wittingly or unwittingly, however, the anthropologist or his reader often causes the differences to disappear in the act of translation. Such translation may render bizarre, exotic or downright irrational what would have been ordinary in its own context. The ethnography comes to represent a sort of allegorical anti-world, similar to the anti-worlds of the insane and the child”. (pág. 08)
Diante disso, ao longo do livro, Crapanzano faz algumas advertências. Primeiro. Para se entender as narrativas de Tuhami, é necessário entender o estatuto que a palavra possui na cultura marroquina, marcada pela competição, e por relações de dominação e dependência (já que se trata, é bom lembrar, de uma sociedade pós-colonial): aquele que é tido como o pólo dominante, numa relação, é aquele que detém a palavra.
Além desse, um outro ponto. Os ocidentais tendem a contrapor imaginário e realidade, colocando essa última sob a rubrica da verdade: realidade e verdade seriam uma coisa só. Assim, Crapanzano assume, que, em boa parte das entrevistas, insistia para que Tuhami falasse sobre sua relação com seus pais, irmãos, avós, sobre sua relação com as mulheres, sobre seus patrões, pressupondo que eles fossem mais “reais” do que os santos, espíritos e demônios que também faziam parte das relações e da vida de Tuhami. Mas, para Tuhami (e para a cultura marroquina), não existe essa distinção. Nas histórias de Tuhami, tanto os santos e demônios quanto as pessoas (seres humanos) possuem o mesmo estatuto: são reais. E tanto uns quanto outros podem ser metafóricos e simbólicos. O interessante é que Crapanzano percebe isso somente no final, quando Tuhami, em suas recitações, começa a destacar acontecimentos envolvendo pessoas reais em situações que evocam, metaforicamente, aquilo que já havia sido contado anteriormente, em histórias cujos personagens eram fantásticos ou mágicos: num esforço para um entendimento comum, Tuhami começa a falar o idioma de Crapanzano.
Metáfora. Crapanzano analisa como os desejos (verdadeiros) de Tuhami expressam-se nas suas narrativas irreais (inventadas, fantásticas). Depois de perder a família e se ver completamente sozinho no mundo, são várias as histórias/versões de uma mesma história contadas por Tuhami nas quais ele é sempre salvo por alguém. Desejaria ele ser salvo por Crapanzano? Esse desejo, essa esperança vêm à tona na medida em que Crapanzano é o seu interlocutor, na situação posta pela entrevista e que – como Crapanzano enfatiza ao longo do livro – precisa sempre ser levada em consideração. Diz ele: “There was always something captivating about Tuhami’s discourse. It was as though he wanted to entrap me, to enslave me through the power of the word in a intricate web of fantasy and reality – to reverse, if you will, the colonial relationship that I as a foreigner, a nasrani, must have suggested to him. There was something seductive in his discourse, too. He did not in fact want me or anyone else. (…) What he wanted, I have come to believe, was rather the imaginary fulfillment of an emptiness, a lack, a manqué-à- être, to use Jacques Lacan (1966) phrase, that he suffered. I became, I imagine, an articulatory pivot about which he could spin out his fantasies in order to created himself as he desired. I was created to create him, to fill metaphorically the emptiness that his desire, in its perversity, desired. Tuhami wanted fulfillment through the metaphor without denying the essencially irreal quality of the metaphor. Anything more concrete would have been too dangerously real”. (pág.140)
História de vida e autobiografia
Logo na introdução, Crapanzano faz uma distinção entre o que ele chama de case history e biografia, de um lado; e história de vida e autobiografia, de outro. Os dois primeiros teriam em comum o fato de apresentarem a história de um determinado sujeito a partir de uma perspectiva externa, um olhar de quem está de fora, e que permitiria ao narrador o “luxo da objetividade” ao analisar e avaliar a vida de um determinado sujeito.
Por sua vez, a história de vida (assim como a autobiografia), apresentariam um sujeito a partir da sua própria perspectiva. A história de vida se distingue, ainda, da autobiografia, por se tratar de uma espécie de resposta imediata a uma demanda posta por um Outro e que carrega nela mesma certas expectativas em relação a esse Outro que o/a interpela.
Mas tanto a história de vida quanto a autobiografia, adverte Crapanzano, consistem numa auto-invenção (self-creation) que é feita, como já foi dito, pelo desejo de ser reconhecido pelo Outro (para o qual se está narrando). Como na pose para o retrato: o retratado não deixa, de certo modo, de encenar para o retratista. Diz Crapanzano: “Tuhami’s evocative play with his own personal history, with his life, may be seen as an extreme example of his attitude toward truth. His several confusing versions of what followed the death of his father, for example, are attempts, I believe, to establish, evocatively, through me, his interlocutor, his own identity, even his worth. Tuhami is in many respects the contemporary Morrocan in extremis. He is both unique and a stereotype”. (pág. 81)
Tuhami inventa mas existem limites postos à sua imaginação e à construção que ele mesmo faz de sua singularidade: limites postos pelo seu próprio idioma cultural. “His tales carries implicity, if not explicity, the Moroccan values, interpretional vectors, patterns of association, ontological presuppositions, spatiotemporal orientations, and etimological horizons that are embedded in his idiom (…) It reflects, for example, the traditional Moroccan social hierarchy, patterns of authority, and attitudes toward paternal and maternal figures, men and women, sexual relations, siblings, and masters and servants. In the permitted ‘blend’ of the imaginary and the real, in the infusion of desire into reality, it reflects conventional and generic constraints” (pág.07). Crapanzano parte da cultura marroquina para entender a narrativa de Tuhami - e não o contrário.
Etnografia
A história de vida como o resultado de um encontro etnográfico, de um encontro entre duas pessoas: o antropólogo interfere na vida que ele está biografando (e vice-versa), e o faz porque cria uma proximidade, uma relação afetiva com o biografado. Várias vezes Crapanzano fala da amizade entre ele e Tuhami.
Com a partida do campo se aproximando, Crapanzano começa a se preocupar com o futuro de Tuhami que, para ele, pertence a Alá: o destino está escrito. Tuhami, assim como outros marroquinos, tendem a atribuir os acontecimentos de sua vida à interferência dos santos e demônios, a uma dimensão transcendental que, segundo Crapanzano, transfere a responsabilidade para um Outro, livrando-o de qualquer sentimento de culpa ou de fracasso. Crapanzano descreve um incômodo em relação à essa inexorabilidade do destino e à postura resignada que Tuhami apresenta, por isso, em relação ao seu passado e seu futuro.
Tuhami se mostra bastante solitário, não tem família e quer se casar. Mas não consegue, porque não tem dinheiro suficiente para o dote da noiva ou para a festa de casamento. Racionaliza ainda, essa condição, atribuindo-a a uma interferência de Aisha Qandisha. Segundo Crapanzano, Tuhami constrói, nas suas recitações, uma “filosofia da resignação”. Crapanzano incomoda-se com ela e diz que aí existe um limite para o seu relativismo. Antes de ir embora, Crapanzano resolve aconselhá-lo.
A relação entre “antropólogo” e “informante”: trata-se do encontro entre duas pessoas, que criaram laços de amizade e afetividade entre si. Crapanzano propõe entender como Tuhami articula, nas suas narrativas, a sua experiência no mundo. Crapanzano quer entender o modo como Tuhami articula, na sua fala, sua própria experiência, como ele auto-reflete sobre sua vida. Uma dessas articulações/reflexões feitas por Tuhami é justamente a idéia do destino traçado, posto, escrito. Crapanzano não reluta em dizer que se incomoda com ela e faz questão de dizer isso a Tuhami. A resposta de Tuhami: mais uma história/metáfora para sua resignação.

Franceses discutem se cabeça maori é parte do corpo ou arte - 27/10/2007 - UOL Mídia Global

27/10/2007
Franceses discutem se cabeça maori é parte do corpo ou arte

Elaine Sciolino
Em Paris

Desde 1875, a cabeça mumificada e tatuada de um guerreiro maori faz parte da coleção permanente do Museu de História Natural de Rouen, na Normandia.

No entanto, quando o prefeito de Rouen tentou recentemente devolvê-la para a Nova Zelândia, como ato de "reparação" pelo tráfico de restos humanos da era colonial, o Ministério da Cultura interferiu para impedi-lo.

O ministério alega que a cabeça é um trabalho de arte pertencente à França e que sua devolução poderia gerar um precedente infeliz para uma gama enorme de coleções de museus nacionais -desde múmias egípcias no Louvre até tesouros asiáticos no Museu Guimet e artefatos africanos e oceânicos no Museu de Quai Branly.


Guerreiros maori fazem apresentação de uma tradicional dança de guerra em Valencia

"O prefeito de Rouen tomou uma decisão sem consultar ninguém, e sua decisão vai contra a lei", disse Olivier Hernard, assessor jurídico do Ministério da Cultura, na quinta-feira (25/10), referindo-se a uma lei de 2002 que afirma que obras de arte são "inalienáveis".

"Há outras cabeças maori, há múmias, há relíquias religiosas na França", disse ele. "Se não respeitarmos a lei hoje, amanhã outros museus ou autoridades podem decidir devolvê-las também."

As autoridades em Rouen insistem que a cabeça maori é uma parte do corpo, não uma obra de arte, e que, de acordo com a lei de bioética da França, deve ser devolvida ao seu local de origem.

"Esse objeto reflete o tráfico bárbaro de partes do corpo e a crença de que outra raça é inferior a nossa", disse Catherine Morin-Desailly, vice-prefeita de Rouen para cultura e senadora, que propôs a devolução da cabeça. "Pertence à herança da humanidade e não deve ficar armazenada em algum museu."

Os maoris tradicionalmente preservavam as cabeças tatuadas de guerreiros mortos em batalha para manter sua memória viva. O comércio de partes do corpo prosperou no século 19, na medida em que o contato com estrangeiros aumentou. Os europeus colecionavam restos maori. Os guerreiros tatuados maori corriam perigo de serem mortos para que suas cabeças fossem vendidas. Alguns escravos maori foram tatuados à força, depois decapitados.

Desde 1992, o museu nacional da Nova Zelândia Te Papa Tongarewa, em Wellington, fez pedidos para que os restos maori fossem devolvidos do mundo todo, como parte de um projeto para restaurar a dignidade dos mortos. O museu tentaria identificar e doar os restos às tribos para permitir enterros adequados.

Mais de duas dúzias de instituições responderam, mas a iniciativa de Rouen seria a primeira da França.

No mês passado, o Museu Field de história natural em Chicago devolveu uma cabeça maori e outros ossos para a Nova Zelândia. O Museu Americano de História Natural em Nova York tem mais de 30 cabeças maori.

Há poucos dias, Christine Albanel, ministra da cultura, conseguiu uma ordem judicial para deter o processo de devolução da cabeça tatuada. Pedindo um processo para garantir a integridade da herança nacional, ela advertiu que pode haver "fortes repercussões" para as outras coleções da França.

Ela também criou um plano tipicamente francês que certamente adiaria qualquer decisão: um debate acadêmico no próximo ano, organizado pelo Museu de Quai Branly e um estudo dos "problemas éticos especiais" de restos humanos em museus públicos.

Stephane Martin, diretor do Quai Branly, concordou com o ministério que a cabeça deveria ficar na França.

"Do meu ponto de vista, são artefatos culturais que tinham uma função na sociedade", disse ele. "Enviá-los de volta para a Nova Zelândia e destruí-los enterrando-os é uma forma de apagar uma página da história."

Martin recusou o pedido da Nova Zelândia para que o Museu de Quai Branly enviasse de volta as quatro cabeças maori de sua coleção. "Estão guardadas em uma área muito especial, e absolutamente não serão colocadas para exibição pública", disse ele. O acesso é restrito a alguns especialistas, disse ele, acrescentando que não sabia o valor das cabeças.

A questão da cabeça maori de Rouen surgiu no início do ano, quando o museu reabriu após uma reforma de 10 anos. A cabeça faz parte da coleção do museu desde 1875, mas não houve registro de sua proveniência nem está listada no inventário oficial.

Os funcionários decidiram não exibir a cabeça e concluíram que sua mera posse não preenchia o espírito do novo museu. Como o museu é da cidade, o prefeito acreditou que tinha autoridade para devolver a cabeça. O museu emitiu um desenho da cabeça, mas proibiu que se tirassem fotografias.

"Este é um gesto ético, baseado no respeito às culturas mundiais e na dignidade que todo ser humano merece", disse o prefeito Pierre Albertini, advogado e membro do parlamento, em seu blog na semana passada.

Na terça-feira, uma delegação de autoridades da Nova Zelândia, incluindo um chefe tribal maori, visitou Rouen para uma cerimônia simbólica de transferência. Albertini e a embaixadora da Nova Zelândia na França, Sarah Dennis, assinaram um documento concordando com a devolução -se o governo francês aprovar.

"Nós, na Nova Zelândia temos uma política antiga de repatriar restos humanos maori sempre que possível", disse Dennis. "Respondemos ao gesto muito respeitoso e delicado de Rouen com apreço".

Morin-Desailly, a vice-prefeita, cita um precedente importante na França em relação ao retorno de restos humanos: os de Saartjie Baartman, a "Vênus Hottentot", como foi pejorativamente rotulada em seu tempo. Uma escrava de fazenda nascida em 1789, foi vendida a um cirurgião da marinha britânica e apresentada ao público em Londres e depois em Paris como aberração, por causa de suas nádegas e genitália exageradas.

Depois que morreu, seus restos foram exibidos no extinto Museu do Homem até 1976, e depois guardados. Em 2002, após anos resistindo, a França enviou seus restos para sua casa na África do Sul.

Tradução: Deborah Weinberg

Visite o site do The New York Times

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Esboçando um campo de discussões

Esboçando um campo de discussões





"Fiel à concepção de história-problema da Escola dos Anais, minha primeira dificuldade consistiu em definir uma problemática que me permitisse apreender o indivíduo São Luis em interação com a sociedade do século XIII, evitando o que o sociólogo Pierre Bourdieu chamou de a "ilusão biográfica", que pretende que se considere a vida de um grande homem como alguém com um destino já traçado, excluindo as eventualidades da vida. Eu, ao contrário, limitei-me a mostrar as hesitações, as decisões e os momentos cruciais da vida de São Luís, a partir da sua infância de rei. Porque se o homem constrói sua vida, ele também é construído por ela. Foram as fontes, na verdade, que representaram as principais dificuldades de meu trabalho de historiador, e isso por causa de sua própria natureza. De fato, uma grande parte dos documentos disponíveis sobre São Luís são de caráter hagiográfico ou normativo. Através de São Luís pinta-se mais o retrato do rei que ele deveria ter sido do que o que foi realmente, como em Les Miroirs des Princes, textos que nos informam mais sobre a concepção do soberano ideal do que sobre a verdadeira personalidade dos reis. As qualidades e os fatos atribuídos a São Luis - freqüentar os pobres e os leprosos, oferecer numerosas esmolas, etc. - são assim atribuídos a outros reis. No entanto, eu tive algumas vezes a impressão de cair em detalhes suficientemente concretos de sua vida cotidiana para dizer: é ele finalmente. Mas mesmo aí eu tive surpresas desagradáveis... E foi então que eu me fiz, de forma provocante, a seguinte pergunta: Será que São Luis existiu? É claro que não se trata de dizer que São Luís teria sido apenas fruto das fantasias da história e dos historiadores, mas de se perguntar se seria possível encontrar o verdadeiro São Luis".





Apresentação


No último capítulo de O Pensamento Selvagem, diz Lévi-Strauss que a história biográfica e anedótica é a menos explicativa, mas é a mais rica sob o ponto de vista da informação, já que ela considera os indivíduos na sua particularidade e que detalha, para cada um deles, os matizes do caráter, as sinuosidades de seus motivos, as fases de suas deliberações.Apesar dos impasses, entre ganhar informação e perder em compreensão, ou inversamente, conforme o nível em que, no caso, o historiador se coloca.
No mesmo livro, quando o autor refere-se ao lugar do nome e que estaria abaixo na ordem da classificação e acima, no da identificação, a razão da diferença não é afirmada pela sua natureza lingüística, mas na maneira pela qual cada cultura recorta o real e nos limites variáveis que marcam, em função dos problemas que apresenta, os limites para o empreendimento classificatório.
Lembremos que Lévi-Strauss (que, aliás, escrevera sobre autobiografias indígenas, sobre o método e os resultados de Sun Chief, na década de 40 e foi quem prefaciou o Soleil Hopi , de Don Talayesva, aos leitores franceses em 1959) já aproximou a história da etnografia, no que teriam em comum a descrição da particularidade.
Há um nexo bem conhecido entre a história e a biografia e, particularmente, o reconhecimento da importância (contestada e afirmada) da narrativa, do acontecimento e da singularidade na historiografia.O que torna mais ainda apropriado o que diz Le Goff na epígrafe citada acima. Particularmente, pela que ela nos sugere das tensões entre Antropologia, e Ciências Sociais, com a perspectiva biográfica.
Para muitas reflexões recentes a perspectiva biográfica não precisa, necessariamente, explicar-se pelo individualismo. Aliás, na maioria das vezes o que a leitura de muitas biografias revela são redes, contextos, relações. Nem se fundamenta a perspectiva biográfica em uma só maneira de conceber a história, a de uma história linear da vida, ou com sentido para a vida. Há também cortes e temporalidades diversas; há trajetos em posições no campo social, há escolhas desordenadas e percursos imprevisíveis. Diríamos mesmo que um certo estilo biográfico pode inclusive ser praticado para criar indivíduos. O que só pode ser revelado por uma análise dos estilos biográficos.
Assim, sugerimos a leitura crítica de biografias para constituir o campo de questões de uma perspectiva biográfica, que enfrente a complexidade e as dificuldades das relações entre temporalidades distintas, narrativas, memória, história, oralidade e escritura, escrita e alteridade. Também, tendo em vista muitos dos impasses no que se refere aos conceitos e análise de totalidades (sociedade, cultura, estrutura social, comunidade, pessoa) e as exigências de tradução do que seriam as (ou , as suas) partes, sugerimos aproximar algumas discussões sobre diferença e rosto. Isto é, a perspectiva biográfica e o rosto como especificações ou inflexões significativas, ao social ou etnográfico, ao corpo.

Em termos mais gerais é este o convite para a discussão, abrindo-se , inclusive, para reflexões que testem os efeitos de autobiografias, biografias, trajetórias, narrativas de vida na relação entre etnografia, história e linguagem.

JSTOR: American Anthropologist: New Series, Vol. 86, No. 4, p. 953

JSTOR: American Anthropologist: New Series, Vol. 86, No. 4, p. 953

Vincent Crapanzano : Life-Histories

JSTOR: American Ethnologist: Vol. 7, No. 2, p. 223

JSTOR: American Ethnologist: Vol. 7, No. 2, p. 223

Apontamentos sobre a Construção do Gênero Biográfico em: “The Person and The Myth: Maurice Lenhardt in a Melanesian World”, de James Clifford.

A biografia de Maurice Lenhardt escrita por James Clifford é extremamente cuidadosa. Concebida de forma a aplacar toda a vida do antropólogo francês, ela não obedece unicamente a um eixo cronológico. Na verdade, Clifford não desconsidera a importância da cronologia, mas ela aparece mais como uma conseqüência do que como propósito central de sua abordagem.
O eixo estruturador da narrativa biográfica de Clifford respeita as temáticas e os embates da vida de Maurice Lenhardt, no que se refere grande conversão da vocação missionária para a antropológica. No entanto, esse processo não é tão simples e podemos afirmar que o mote maior do livro consiste em acentuar todas as nuances da construção do self biografado. Nesse sentido, Clifford afirma que seu maior intuito foi aplicar a teoria de Lenhardt sobre a pessoa melanésia para o próprio autor biografado.
Se retomarmos a teoria de Lenhardt sobre a pessoa melanésia, entenderemos que a noçõ de pessoa é algo misto entre a noção de indivíduo — muito comum nas sociedades ocidentais, regidas por uma lógica antropomórfica, em que as participações e/ou atuações sociais são regidas por uma racionalidade intrínseca — e a noção de personagem — típica de sociedades “arcaicas”, em que não há a concepção do eu como algo separado do ambiente vivo que o cerca. Nessas sociedades, consideradas cosmomórficas, as participações e/ou atuações sociais são orientadas pelo mito (cf. Clifford, 1997: 174/175).
De acordo com a teoria de Lenhardt, a pessoa melanésia sabe se diferenciar em parte do ambiente social do qual faz parte, mas ainda possui uma forte conexão com ele, que nunca é negada, operando simultaneamente com uma lógica racional e com o pensamento mítico. Da mesma form Clifford constrói a figura de Maurice Lenhardt: ele é ao mesmo tempo moldado pelos ambientes protestante e francês, pagão e canaque e carrega consigo todas as ambivalências e contradições de duas experiências tão singulares e tão intrincadas, o que pode ser visto na própria construção de suas identidades sociais, quer como o missionário em campo, que lê teoria antropológica e faz concessões religiosas, quer como o professor canaque, que ensina Religiões de Povos não Civilizados na Ecole des Hautes Études em Paris e nunca abandona sua preocupação missionária e seu compromisso com a colonização da Oceania.
Para a elaboração desse trabalho, James Clifford contou com o apoio dos filhos de Lenhardt, especialmente Raymond, que concedeu o acesso a textos não publicados de Maurice Lenhardt, cartas pessoais (que ele trocava sobretudo com o pai, com a esposa e com os amigos mais íntimos), notas de leitura do antropólogo e diversas matérias de jornal. Além disso, o autor também pode contar com a ajude de Roselène Dousset-Leenhardt que escreveu um pequeno texto autobiográfico, no qual procurava “retratar” o pai, Maurice, e toda a sua família nos anos 1920. Por fim, Clifford também contou com Mme Hilda Danon, que escreveu um estudo filosófico sobre Lenhardt.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Os filhos de Sánchez de Oscar Lewis. Lisboa: Moraes Editores, 1970, tradução de Maria Cardoso.

Sobre o autor:

  • Nasceu em 1914 na cidade de Nova Iorque. Historiador e doutor em Antropologia pela Universidade de Columbia é, talvez, conhecido como um dos primeiros autores de referência no estudo da cultura da pobreza. Foi representante de campo dos EUA no Instituto Indiano Nacional na América Latina (1943-44) e membro da Guggenheim. Dedicou-se, nos últimos 20 anos, ao estudo de outras culturas: índios pés negros do Canadá, as quintas do Texas, plantação de açúcar em Cuba, aldeia no México e na Índia. A partir de 1943, ano de sua primeira visita ao México, a população rural e urbana deste país passou a ser seu principal objeto de estudo.

O livro é dividido em:

  • Agradecimentos
  • Introdução
  • Genealogia
  • Prólogo (prefácio): Jesus Sánchez
  • Parte I: Manuel, Roberto, Consuelo e Marta (narram suas vidas até os 15 anos. Manuel, Roberto e Consuelo iniciam a narração a partir do mesmo fato: a morte da mãe. Marta, que tinha 2 anos quando a mãe morreu, inicia sua narração contando o quanto irritou suas madrastas)
  • Parte II: Manuel, Roberto, Consuelo e Marta
  • Parte III: Manuel, Roberto, Consuelo e Marta
  • Epílogo (conclusão): Jesus Sánchez
  • Nota sobre o autor

  • Introdução:

Lewis apresenta rapidamente a família Sanchez:

Família pobre da Cidade do México, o pai, Jesus, de 50 anos, e seus quatro filhos: Manuel, 32 anos, Roberto, 29, Consuelo, 27, e Marta, 25. E anuncia seu objetivo:

“O meu objetivo é dar ao leitor uma visão clara da vida em família e do que significa crescer em uma casa de uma só divisão num bairro pobre no centro de uma grande cidade da América Latina, que está a sofrer um processo de transformação social e econômica.” (p. 11)

  • Explica qual foi seu método:

Fornecer ao leitor uma perspectiva mais profunda sobre a vida de uma família, recorrendo a uma nova técnica pela qual cada um dos membros da família conta a história da sua própria vida por meio de suas palavras.

  • E o justifica:

“Este método dá-nos uma visão cumulativa, multifacetada, panorâmica de cada individuo, da família como um todo, e de muitos aspectos da vida da classe baixa mexicana. As versões independentes dos mesmos incidentes dadas pelos vários membros da família permitem-nos ajuizar da fidelidade e validade de muitos dos dados e pôr assim de lado a subjetividade inerente a uma autobiografia única. Ao mesmo tempo, revela a discrepância ao nível da evocação dos acontecimentos, feita por cada um dos membros da família.”

  • Portanto, o método de autobiografias mútuas:

Tende a reduzir a subjetividade do investigador porque os elementos não são filtrados pela mentalidade de quem as está fazendo, neste caso, um norte-americano de classe média, já que quem fala são os indivíduos.

  • Sobre o gravador:

“O gravador utilizado para registro das historias neste livro permitiu o advento de um novo tipo de literatura de realismo social. Graças ao gravador, pessoas inexperientes, incultas, e até mesmo analfabetas, podem falar de si e contar as suas observações e experiências de uma maneira desinibida, espontânea e natural. As historias de Manuel, Roberto, Consuelo e Marta são de uma simplicidade, sinceridade e clareza que caracterizam a palavra falada, a literatura oral em contraste dom a literatura escrita. Apesar da sua falta de treino, estes jovens exprimem-se de uma maneira notável, particularmente Consuelo que por vezes atinge uma dimensão poética. Embora dominados pelos seus problemas não resolvidos e pelas suas confusões conseguiram transmitir suficientemente de si próprios e darem-nos uma visão da sua vida, fazendo-nos tomar consciência das suas potencialidades e talentos perdidos,” (p. 12)

  • Local onde se passam as histórias:

Vecindad da Casa Grande: habitação ampla com um só andar, no centro da Cidade do México. Esta é uma das centenas de vecindades que o autor conheceu em 1951, quando fez um estudo sobre a urbanização dos camponeses que vieram se instalar na Cidade do México, oriundos da Aldeia Azteca.

  • Como encontrou a família Sanchez:

Em outubro de 1956, durante um estudo sobre a Casa Grande, contatou Jesus Sánchez. Esta família fazia parte da amostragem ao acaso de 71 famílias escolhidas para este estudo na Casa Grande (p.16). Rapidamente fala de Jesus:

“Jesus vivia naquela casa há mais de vinte anos e, embora os filhos se tivessem deslocado frequentemente durante esses anos, o apartamento de uma só divisão na Casa Grande era o ponto nuclear de estabilidade das suas vidas. Lenore, a mãe e primeira esposa de Jesus, tinha morrido em 1936, poucos anos antes de terem mudado para a Casa Grande. A irmã mais velha de Lenore, Guadalupe, de 60 anos, vivia na pequena vecindad de Panaderos na rua dos Padeiros, a uns quarteirões de distancia. A tia Guadalupe era para cada um dos filhos a segunda mãe; visitavam-na frequentemente e a sua casa era para eles um refugio sempre que necessitavam. O campo de ação da historia das suas vidas situava-se assim entre a Casa Grande e a vecindad de Panaderos.” (. 13)

  • Vecindades

Da pagina 13 à 16 apresenta uma descrição detalhada das vecindades da Casa Grande e da Panaderos, comparando-as. Apresenta porcentagem de bens de consumo duráveis, renda per capita, valores de aluguéis, grau de instrução, porcentagem de uniões livres, laços de sangue, casamento e compadrazgo (relação de caráter ritual entre pais, padrinhos e afilhados).

p. 16: Último parágrafo: situa a Família Sánchez sob o ponto de vista de rendimento

p. 17: Conta como foi seu primeiro contato com a Família Sánchez

“Fui apresentado...”

  • Primeira pergunta que fez à família: As pessoas vivem melhor no campo ou na cidade?

Depois de outras perguntas desse gênero, começou com seu questionário: sexo, idade, local de nascimento, educação, ocupação, vida profissional de cada membro da família

Ao fim dessas perguntas, chegou bruscamente Jesus Sánchez. Descreve-o rapidamente e conta qual foi sua resposta sobre a pergunta “as pessoas vivem melhor no campo ou na cidade?”

  • Por que a história da Família Sánchez

Após alguns meses de trabalho com outras amostras de agregados familiares da vecindad, Lewis notou, por meio de 4 entrevistas com a família Sánchez, que esta única família ilustrava muitos dos problemas sociais e psicológicos da vida da classe baixa mexicana. Foi assim que decidiu empreender um estudo mais em profundidade: começou com Consuelo, depois Roberto e Marta. Esses contaram suas historias, que eram gravadas com seus consentimentos e autorizações. Quando Manuel regressou de viagem, cooperou também. Lewis começou a trabalhar com o pai (Jesus) seis meses depois de ter começado com os filhos. E diz: “Era difícil obter a sua confiança, mas quando finalmente concordou em deixar-me gravar a sua história, isso contribuiu para estreitar a minha relação com os filhos” (p. 18).

p. 18: penúltimo parágrafo: fala como eram realizadas as entrevistas, como fazia para obter dados íntimos e como uma amizade entre ele e a Família Sánchez foi construída.

p. 19: último parágrafo: treino de antropólogo, familiaridade com a cultura mexicana, seus valores contribuíram para os resultados da pesquisa. Tentou abarcar um amplo conjunto de temas: recordação da infância, sonhos, sexualidade, trabalho...

  • Organização das entrevistas:

p. 20: “Quando preparei a publicação das entrevistas, eliminei as minhas perguntas e selecionei, ordenei e organizei o material em histórias coerentes.”

domingo, 21 de outubro de 2007

O mistério de Agatha Christie

Biógrafa aborda as dificuldades para retratar a best-seller inglesa, que se mostrava cortês, mas impenetrável

LAURA THOMPSON

É estranho como alguém pode dedicar anos a um livro -no meu caso, a uma biografia de Agatha Christie- e, a seguir, lembrar tão pouco sobre o processo de tê-lo escrito. Minhas memórias dessa batalha praticamente desapareceram. Suponho que se trate do equivalente literário a esquecer as dores do parto.
Há momentos, porém, em que sei que me pareceu difícil trazer Agatha à vida. Sua imagem -a de uma dama gentil de classe média alta, dotada de talento incomum para criar enigmas- ocasionalmente parecia impenetrável, o que suspeito tenha sido sua intenção.
Poucas das pessoas que a conheceram de mais perto continuam vivas, e mapear seus relacionamentos foi difícil.
E, quando localizadas, as pessoas que pretendia entrevistar provavam ser parecidas com Agatha Christie: corteses, reticentes e antiquadas -de forma nenhuma o tipo de personalidade que se dispõe a compartilhar seus pensamentos com um escritor.
Persuadi-las a fazê-lo foi provavelmente a parte mais árdua do meu trabalho ("Agatha Christie - An English Mistery", Agatha Christie - Um Mistério Inglês, Review, 416 págs., 20 libras, R$ 78), e parecia muito pouco relacionada à redação de um livro.
Coisas como essa são parte do processo de construção de uma biografia. Por vezes, esse tipo de trabalho pode se tornar insuportavelmente frustrante, como se a pessoa que serve de tema ao trabalho estivesse conspirando contra seu desejo de simplesmente escrever um livro.

Não conte tudo
Sempre pensei que biografias fossem simples livros; que elas deviam criar uma narrativa de maneira tão legível quanto possível e levar em conta a advertência de Voltaire: "Se vocês desejam entediar seus leitores, contem-lhes tudo".
Quando primeiro decidi escrever sobre Agatha Christie, nem mesmo considerava a hipótese de produzir uma biografia propriamente dita.
Sua ficção de mistério me fascinava havia muito, e me parecia que uma reavaliação era necessária; mais tarde, eu me apaixonei pelos seis romances que ela escreveu sob o pseudônimo de Mary Westmacott.
Assim, a concepção original de meu livro era como uma evocação, um estudo, e não uma biografia plena.
A biografia ainda é vista freqüentemente como uma habilidade especial de localizar o maior número possível de fatos e montá-los de maneira representativa, como se cada pedaço de papel, cada entrevista, fosse uma pista que conduz a uma solução clara. No dia tal e tal o biografado disse isso; na semana seguinte, fez aquilo; em 1935, escreveu aquilo mais -e eis que temos um retrato concluído!

Indústria da biografia
Basta imaginar um biógrafo tentando narrar nossas vidas, dentro de 50 anos -os idiotas com quem eles podem vir a conversar sobre você, os motivos que podem atribuir a ações que você mesmo mal compreendia- para vislumbrar até que ponto a indústria da biografia repousa sobre bases precárias.
Especialmente no caso de alguém como Agatha Christie, cujo grande desejo era usar a fama como uma cortina por trás da qual se proteger.
Após 1926, quando passou 11 dias desaparecida após seu primeiro marido lhe dizer que estava apaixonado por outra, ela se tornou uma pessoa obsessivamente discreta. Mas a ironia é que deixou uma verdadeira montanha de pistas.
E, quando tive acesso a elas, cerca de um ano depois de assinar o contrato para meu livro, subitamente me vi em posse de material novo.
Na velha casa de Agatha em Devon -a bela e mágica Greenway House, uma casa branca, quadrada, da era georgiana, cercada de árvores retorcidas- havia salas e mais salas repletas de papéis, baús contendo montanhas de cartas, guarda-roupas que abrigavam casacos de pele ainda enfeitados por um leve traço de perfume, caixas contendo trajes de batizado, livros de recortes, álbuns fotográficos. Fui à casa pela primeira vez para ser apresentada a Rosalind, filha de Agatha, ocasião maravilhosa, mas fonte de grande ansiedade. Quando Rosalind morreu, em 2004, seu filho, Matthew, me deu acesso a tudo que a casa continha.
O amoroso desmazelo das memórias acumuladas era pungente -em especial a pasta, marcada pelas iniciais de Agatha, na qual ela guardava as cartas que lhe foram escritas por Archie Christie, com quem se casou em dezembro de 1914 e por conta de quem, 12 anos mais tarde, sofreria um colapso nervoso e desapareceria.
Pela primeira vez percebi que aquilo que uma pessoa preserva, aquilo que mais tarde se torna "material" para um biógrafo, tem significado não só intrínseco mas também ainda por existir.
De 1926 até sua morte, quase 50 anos mais tarde, Agatha guardou as cartas de amor de Archie. Elas eram mais que material para meu trabalho. Diziam algo mais que as palavras que continham. Lendo-as, segurando-as nas mãos, senti a história de meu livro começando a surgir. Na medida em que isso é possível, tentei fazer dele a história de Agatha.


A íntegra deste texto saiu no "Independent". Tradução de Paulo Migliacci.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Parcours d'un collectionneur : l'Histoire, la fable et le portrait


Parcours d’um Collectionneur: L’histoire, la fable et le portrait.
(Exposition Parc Sceaux- Paris)

Cette exposition inédite présente une collection particulière de 37 tableaux et dessins de l'école française des XVIIe et XVIIIe siècles, dont le caractère exceptionnel repose sur la sélection habile de peintres majeurs, la richesse et l'originalité des thèmes iconographiques et la redécouverte d'œuvres qui ont marqué l'Histoire de l'Art, présentées dans un parfait état de conservation, et pour la plupart abondamment documentées.
http://espanol.pidf.com/page/p-313/art_id-1225/idf-FmaIDFSRV0022788/

Les sujets: la fable mythologique, l’histoire religieuse, l’art du portrait, la scène de genre et le paysage.
Aqui transcrevo trechos, sobre o retrato, que creio que foram os mais interessantes para postar aqui:

Le Portrait

Comme le peintre d’histoire, le portraitiste represente la figure humaine mais le premier mérite de sés ouvrages consiste plus simplement à rendre une parfaite ressemblance. Des peintres au talent aussi éminent que Largillierre, De Troy et Rigaud, chacun prenant la tête d’um vaste atelier, se spécialisent dans cette activité fort lucrative et font fortune. Au XVIII siècle, l’omniprésence des portraits au Salon du Louvre ouvre um débat opposant partisans et adversaires d’ une peinture souvent jugée frivole, davantage soumise aux caprices de la clientèle qu’aux règles de l’art. Les portraits de caractere du pastelliste La Tour ou de Greuze échappent toutefois aux jugements sévères de la critique d’art.

- Jean-Baptiste Jouvenet (1644-1717)
- François de Troy (1645-1730)
- Philipe de Champaigne (1602-1674)
- Jean Baptiste Greuze (1725-1805)
- Jean- Baptiste Oudry (1686-1755)
- Hyacinthe Rigaud (1649-1743)

No link abaixo em extensão pdf dá para ver algumas imagens…

Mas olhando alguns quadros, como O Portrait d’um Magistrat de Jean-Baptiste Jouvenet, notei que os rostos estão sempre acompanhados de objetos que identificam suas relações sociais; o retrato aparece como uma reliance entre indivíduo e sociedade, sejam as marcas da justiça, a maternidade, no caso do portrait de la comtese de Brionne et de son fils Louis de Lorraine, pince de Lambesc ; as marcas da autoridade nas vestes de Armand Jean du Plessis, cardinal de Richelieu dans sa bibliothèque.
O retrato de um indivíduo é de alguma maneira uma forma de eternizar ou cristalizar imagens de sua biografia? O que nela não aparece é tão importante quanto o que aparece? Imagem e texto de alguma maneira caminham juntos, pois ao olhar, algumas dessas, imagens eu fiquei a me perguntar o que teria escapado da imagem daquelas pessoas que o retrato tentava de alguma maneira esconder, através dos objetos de suas funções sociais... o retrato não seria de algum modo uma arte de ressemblance (semelhança) mas também de esconder o que escapa a isso? As (des) semelhanças?




quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Qual Lutero? A Partir De Onde?

Lucien Febvre
Un Destin: Martin Luter
Paris: Presses Universitaires de France
1945 (1927)


Sola Scriptura, Sola Fide: A Palavra (o espírito em oposição à letra) e a Fé a partir unicamente do indivíduo.


Epigrafe:

Um amigo lhe disse um dia que ele foi o libertador da cristandade. “Sim, respondeu ele, eu sou, eu o fui. Mas como um cavalo cego que não soube para onde seu mestre o conduzia.” – Mathesius, VII.
Prefácio da Primeira Edição (1927):

“Uma biografia de Lutero? Não. Um julgamento sobre Lutero, nada mais.
Desenhar a curva de um destino que foi simples, mas trágico; recuperar com precisão quaisquer pontos verdadeiramente importantes pelos quais ele passou; mostrar como, sob a pressão de quais circunstâncias, seu élan primeiro teve que se enfraquecer e causar a inflexão de seu traçado primitivo; colocar, portanto, a propósito de um homem de uma singular vitalidade, este problema das relações do individuo e da coletividade, da iniciativa pessoal e da necessidade social que é, talvez, o problema capital da história: tal foi nossa intenção.
Tentar, também em poucas páginas, de o realizar: isso era consentir logo de começo a enormes sacrifícios. Haveria qualquer injustiça suficiente a nos repreender. E nós não gostaríamos menos de nos surpreender se, forçados a escolher, nós nos sacrificamos deliberadamente ao estudo do Lutero maduro [épanoui] que, de 1517 a 1525 tem sobre a cena do mundo, com tanto vigor, seu papel heróico de profeta inspirado, do que o Lutero hipotético dos anos de juventude, ou o Lutero esgotado, vazio, desiludido que vai se esvaecendo de 1525 até 1546.
Deveremos acrescentar que ao escrever este livro, nós tivemos apenas um único compromisso: compreender, e na medida em que nós o poderíamos, fazer compreender? Melhor seria dizer como nós ficaríamos satisfeitos, simplesmente, se, neste trabalho de vulgarização, de reflexão também, os exegetas qualificados do pensamento luterano reconhecessem ao menos um cuidado constante: aquele de não empobrecer ao excesso, através de simplificações por demais brutais, a riqueza nuançada de uma obra que foi não tanto melódica, mas, como a moda de seu tempo, polifônica.”

Prefácio da Segunda Edição (1945):
“Eu falei, a partir do que eu tenho de melhor, sobre o jovem Lutero, e sua força, e sua fuga, e tudo aquilo que ele trouxe de novo ao mundo sendo ele mesmo [lui]. Obstinadamente ele mesmo. Nada mais que ele mesmo. Tudo aquilo que ele trouxe? Uma nova forma de pensar, de sentir e de praticar o Cristianismo. Que, não tendo sido esmagado no ovo, nem endossado tal qual, nem digerido amigavelmente pelos chefes da Igreja, vem a ser, a partir deste chefe, e naturalmente, uma religião nova, um ramo novo do velho cristianismo. E vem a ser o gerador, senão de uma nova raça de homens, ao menos de uma nova variedade da espécie cristã: a variedade luterana. Menos resolvido sem dúvida em sua aparência exterior, menos abrupto, menos dado a se repartir longe dos lugares de origem que esta outra variedade vivaz e prolífica, que com trinta anos de distância engendrou da Picardia João Calvino? Certamente. Mas entretanto foi tenaz. Durável. Susceptível de se dobrar em eventos diversos. Capaz de atração, ao ponto de adulterar talvez, ao que parece, a variedade vizinha e de inspirar crenças nos guardiões enciumados de sua pureza. De importância histórica considerável, em todo caso, que vem do fato que ele povoa notadamente uma parte da Alemanha. E que o espírito luterano adere fortemente na mentalidade dos povos que o adotam.
Que haja lugar para se estudar o Lutero pós 1525 como o Lutero de antes: não restam dúvidas. Que entre estes dois Luteros, não haja aliás nenhuma cisão verdadeira - melhor, que não tenha havido dois Luteros, mas um só; que o Lutero de 1547 seja sempre, em sua fé, o Lutero de 1520 – estamos de acordo. Eu nunca quis dizer nem nunca disse o contrário. Eu freqüentemente defendi a tese, paradoxal aos olhos de muitos, que o Lutero da guerra paisana, o Lutero condenando com tanta paixão, veemência, crueldade os paisanos revoltosos, não era um outro Lutero que o Lutero de 1520, aquele que escreveu os grandes tratados liberais – eu freqüentemente tentei estabelecer, contra tantas tentativas contrárias e motivadas, a unidade profunda e durável das tendências luteranas através dos eventos os mais desconcertantes – que se torna inútil, sem duvida, que eu me desculpe por uma falta que eu não cometi nem de fato nem em intenção. Vinco não significa rompimento [Repli ne signifie pás coupure]. O ser que, batendo seus tentáculos de todas as partes sobre o mundo hostil, adentra o mais que pode dentro de sua concha para se conferir ai um sentimento de paz interior e de liberdade bem-feitora – este ser não se divide em dois. Quando ele sai de novo, é ele, sempre ele que recomeça a tatear pelo mundo eriçado; e inversamente. – Somente, quem gostaria de compreender num Lutero este jogo alternado de saídas e reentradas, de explorações e de retiradas – não é em 1525, em 1530 que ele deve ser colocado saindo. É muito antes. É no ponto de origem. Situar este ponto, com precisão, na vida de Lutero; seguir os primeiros desenvolvimentos dos germes de “luterismo” [“luthérisme”] que um exame atento permite de revelar, desde antes quando Lutero não tinha ainda se tornado Lutero; ver nascer, crescer e se afirmar o Lutero no Lutero – e depois, a afirmação tendo sido feita e meditada, parar; colocar em confronto o homem com os homens, a doutrina com as doutrinas, o espírito com os espíritos que lhe era necessário ou combater, ou juntar-se (e não se juntam jamais os espíritos, não se ganham jamais os homens, não se substitui jamais uma doutrina por outra, sem deixar fatalmente um outro espírito invadir nosso espírito, um outro homem penetrar nossa humanidade, outras doutrinas abocanharem nossa doutrina). – Eis o que eu quis fazer. Eis o prefácio necessário, indispensável à todo estudo do Lutero posterior à 1525. Um tal estudo não pode ser suficiente em si mesmo; Falta-lhe, em prefácio, o conhecimento sólido do Lutero anterior à 1525 – e ele não esclarece, não permite, retrospectivamente, compreender, explicar, fazer compreender este Lutero. Ao contrário, um estudo do Lutero anterior à 1525 – ele da conta de todo Lutero. Foi disto que, Franceses, nós carecíamos em 1927. É disto ainda que nós temos necessidade em 1944.”
Capítulo II: Revisão da Literatura Precedente:

“E como Lutero, desde o começo, entrelaçou a história de suas crises àquela de seu pensamento, procuremos compreender o que um tal amálgama representava para ele.
Sobre esse ponto delicado, Denifle não vacila menos, nós o sabemos a partir do resto. Remorsos, pensamentos malvados, desejos clandestinos: eis todo o caso. Lutero vivia, no fundo de si, com sua carne em perpétua revolta contra seu espírito. Entendam, sem equívoco, sua luxuria. Concupiscentia carnis, a obsessão sexual.
Admiremos, aqui também. Estas pessoas, quero dizer, Denifle e seus tenentes, sabem seguramente com qual violência os desejos impuros não cessaram de incomodar um ser que não fez nada a ninguém. Vêem bem a penetração? Quanto aos campeões patenteados da inocência luterana, admiremo-los igualmente: com uma tal auto-confiança, não proclamam eles a pureza, a candura dos pensamentos de um ser que os mantém em segredo como a maioria dos seres: os outros, que se confessam, teriam eles que os crer cegamente? – Não nos concedamos em todo caso, o ridículo de querer recorrer ao primeiro nem ao segundo partido. Nós não sabemos. Nós não temos nenhum meio de descender, retrospectivamente, aos vincos íntimos da alma luterana. Firmes sobre o domínio dos fatos e dos textos, nos limitemos simplesmente a constatar duas coisas.
Uma, patente: ninguém jamais acusou Lutero de ter vivido mal durante seus anos de convento, quero dizer, de ter quebrado seu voto de castidade. A outra não é menos patente para quem examina os textos sem tomar partido: Denifle restringe, de forma abusiva, o sentido desta noção de Concupiscentia Carnis que foi tão usada por Lutero.”

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

O transplante de rosto

Durante a aula de hoje, me lembrei da história de Isabelle Dinoire que, no final de 2005, depois de ser "desfigurada" pelo ataque de um cachorro, recebeu o rosto de uma outra pessoa. Vale recuperar a história toda, desde discussões sobre a ética e a legalidade de um procedimento médico desse tipo, a rejeição ocorrida após a cirurgia, a relação entre rosto e identidade... Seguem alguns artigos publicados, na ocasião, no caderno Mais da Folha de S. Paulo.

COM O OUTRO NO CORPO
O ESPELHO PARTIDO
APROPRIAÇÃO DOS TRAÇOS FACIAIS DE OUTRA PESSOA ROMPE O SENTIDO DE IDENTIDADE E RELATIVIZA O NARCISISMO DA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

"Um rosto extinto. Um grau de extinção por certo nunca antes atingido na espécie humana"(Michel Tournier)

MARIA RITA KEHL

O que acontece com o sentimento de identidade de uma pessoa que se depara, diante do espelho, com um rosto que não é seu? Como é possível manter a convicção razoavelmente estável que nos acompanha pela vida, a respeito do nosso ser -essa ficção indispensável- no caso de sofrermos uma alteração radical em nossa imagem?Perguntas como essas provocaram um intenso debate a respeito da ética médica depois do transplante de parte da face em uma mulher que teve o rosto desfigurado por seu cachorro em Amiens, na França.Deixo de lado os aspectos da discussão motivados pela rivalidade profissional, em que argumentos éticos podem mascarar a disputa por prestígio e glória entre equipes médicas da França e da Inglaterra. Interessa-me a relação subjetiva entre a identidade e o rosto. Essa relação é tão íntima que, dentre as várias possibilidades de mutilação física, consideramos hediondas as que destroem partes do rosto. Nesses casos, empregamos o termo desfiguração.Quando o rosto se torna irreconhecível, a figura humana se desfaz. A legislação britânica que condena o transplante de rosto em consideração à (previsível) crise subjetiva ante uma transformação radical dos traços da face desconsidera que, mais despersonalizante do que encontrar no espelho um rosto alheio, é não encontrar rosto nenhum.Ou não: talvez seja menos custoso para um acidentado suportar o luto pela perda da figura facial -e manter sob as ataduras a identificação imaginária com o rosto antigo- do que o estranhamento diante de um rosto outro.Ilusão necessáriaMas penso que vale a pena o trabalho de refazer essa identificação. O que chamamos, confusamente, de identidade não tem nada a ver com o ideal -sempre fracassado- de nos mantermos idênticos, seja a nós mesmos, seja à imagem ideal que pretendemos oferecer ao olhar do outro. A identidade é uma ilusão necessária, de unidade e continuidade do eu.Ocorre que o eu se constitui a partir da imagem corporal. Nosso sentimento de permanência e unidade se estabelece diante do espelho, a despeito de todas as mudanças que o corpo sofre ao longo da vida. A criança humana, em um determinado estágio de maturação, identifica-se com sua imagem no espelho. Nesse caso, um transplante (ainda que parcial) que altera tanto os traços fenotípicos quanto as marcas da história de vida inscritas na face destruiria para sempre o sentimento de identidade do transplantado?Talvez não. Ocorre que o poder do espelho -esse de vidro e aço pendurado na parede- não é tão absoluto: o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante.É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" -aspas necessárias.Sagrado e insubstituívelO rosto é a sede do olhar que reconhece e busca reconhecimento. O rosto é sagrado, disse e escreveu insistentemente Emmanuel Lévinas. Por que sagrado? O que há de insubstituível em um rosto, que faz dele o centro da nossa humanidade e a sede imaginária do eu? É que o rosto não se reduz à dimensão da imagem: ele é a própria presentificação de um ser humano, em sua singularidade irrecusável. Além disso, dentre todas as partes do corpo, o rosto é a que faz apelo ao outro. A que se comunica, expressa amor ou ódio e, acima de tudo, demanda amor.A literatura pode nos ajudar a amenizar o drama da paciente francesa. O Robinson Crusoé do livro "Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico" (Bertrand Brasil), de Michel Tournier, perde a noção de sua identidade e enlouquece, na falta do olhar de um semelhante que lhe confirme que ele é um ser humano. No início do romance o náufrago solitário tenta fazer da natureza seu espelho. Faz do estranho, familiar, trabalhando para "civilizar" a ilha e representando diante de si mesmo o papel de senhor sem escravos, mestre sem discípulos.Mas depois de algum tempo o isolamento degrada sua humanidade. O Robinson de Tournier passa a se identificar com os animais, falar com os macacos e rolar na lama com os porcos. "Narciso de um tipo novo, abismado de tristeza, com recrudescido nojo de si (...), compreendeu que o rosto é essa parte da carne modelada e remodelada, aquecida e permanentemente animada pela presença dos nossos semelhantes."Na versão de Tournier, a entrada em cena do selvagem Sexta-Feira vem salvar Robinson Crusoé não da solidão, mas da loucura.A paciente francesa, que agradeceu aos médicos a recomposição de uma face humana, ainda que não seja a "sua", vai agora depender de um esforço de tolerância e generosidade por parte dos que lhe são próximos.Parentes e amigos terão que superar o desconforto de olhar para ela e não encontrar a mesma de antes. Diante de um rosto outro, deverão ainda assim confirmar que ela continua sendo ela. E amar a mulher estranha a si mesma que renasceu daquela operação.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta, autora de, entre outros livros, "Ressentimento" (Casa do Psicólogo).


TRANSPLANTE DE SENTIDO
A CIRURGIA SE ASSEMELHA A UMA RECONEXÃO SIMBÓLICA COM O MUNDO, MAS PODE TRAZER SEQÜELAS GRAVES PARA A PERSONALIDADE, COMO NÃO SER MAIS RECONHECIDO

DAVID LE BRETON

O transplante realizado na semana passada, em Amiens, pela equipe do professor Dubenard coloca em destaque numerosas questões antropológicas. Para as sociedades ocidentais, o rosto cristaliza o sentimento de identidade. De forma vivaz e misteriosa, ele traduz o absoluto de uma diferença individual concomitante à afiliação a um grupo.O rosto faz sentido imediatamente; nenhum outro espaço do corpo é mais apropriado para determinar a singularidade e sinalizá-la como cerne do nexo social. Por ele o homem é reconhecido, identificado, amado. Como o sexo, é a mais forte fonte do sentimento de identidade.Um homem que se recusa a realizar uma ação que considera reprovável afirma que não o fará porque "não poderia se olhar no rosto" caso agisse de outra forma. Mas, sem que tenha cometido nenhuma falta, um homem desfigurado se vê confinado a essa impossibilidade. Um ferimento que deixa uma cicatriz profunda em um braço, perna ou no ventre não coloca em questão de maneira tão virulenta o sentimento de identidade, especialmente se a ferida não vier a acarretar nenhuma seqüela funcional.Toda alteração no rosto marca a personalidade do indivíduo em sua forma mais profunda. É por intermédio do rosto que se pode desfrutar do significado e até mesmo do valor da existência. A dolorosa experiência da desfiguração faz evocar o fato de que o homem não vive apenas como corpo físico. O homem habita um corpo imaginário, ao qual atribui significados e valores, com os quais integra o mundo a si mesmo e se integra como pessoa ao mundo.A desfiguração introduz uma brutal ruptura no cerne da aliança, já em si razoavelmente problemática, mas ainda assim passível de concretização, entre o corpo real e a imagem que o indivíduo faz dele.Suspensão do euDe maneira provisória ou permanente, o homem desfigurado vive a suspensão do eu, a privação simbólica de seu ser que apenas uma mobilização completa da vontade torna possível reconstituir. Ele convive com o sentimento de que sua identidade está desfeita, e se esvai a cada olhar, seu mesmo ou de outros.Inúmeras pessoas se sentem excluídas de si mesmas e do mundo, em luto por seu próprio ser, ainda que continuem a existir. A desfiguração constitui uma condenação à morte simbólica.A capacidade de superar esse revés e de recuperar plenamente o prazer de viver que se sentia anteriormente está vinculada à experiência pessoal do protagonista, à sua situação social e cultural, à sua idade, às qualidades das pessoas que o cercam. Mas há casos em que ele sofre o desmantelamento de seu ser, a erradicação brutal de tudo aquilo que ele era antes, e cuja perda lhe parece definitiva. A desfiguração dispõe sobre o rosto uma máscara ou ricto como que provocado por um banho de ácido. Não ter mais figura humana pode ser considerado uma metáfora para a morte.A perda do rosto, em termos psicológicos e sociais, equivale a perder a posição que a vítima ocupa no mundo. "Fazer face" aos problemas passa a depender dos recursos íntimos do protagonista. A desfiguração salta aos olhos de todos, atrai o olhar curioso dos passantes e causa embaraço aos interlocutores que fazem com ela o seu primeiro contato.Sob esse contexto tão pesado em termos humanos, um transplante de rosto é acima de tudo uma cirurgia de sentido e tem por objetivo restaurar o prazer de viver de um paciente ao qual foi amputada parte essencial daquilo que fundamenta sua relação com o mundo. A operação se assemelha ao restabelecimento simbólico de uma conexão com o mundo.Mas transplantar um rosto consiste acima de tudo em transplantar uma identidade, e a operação tem conotações sísmicas para as bases da personalidade. Receber o rosto de outro é como se expor a não mais ser reconhecido, a não mais poder se olhar no espelho sem perceber outra pessoa colada ao próprio rosto.É certo que a cirurgia não representa a duplicação do rosto do doador da face transplantada, porque o rosto será em parte adaptado à estrutura óssea do receptor, mas este não recuperará o rosto que tinha nem será poupado do choque de alteridade de que essa mudança se impregna. O rosto que passará a ostentar não será o mesmo que antes exibia. O risco de se sentir "possuído", "despersonalizado", é tangível para as personalidades frágeis e que não tenham refletido o suficiente sobre a questão antes do procedimento.Presente envenenadoUm transplante de órgãos ou tecidos nem sempre é uma experiência tranqüila para o paciente: muitas vezes o receptor de um transplante considera o órgão recebido como um presente envenenado. Uma intervenção desse tipo perturba o sentimento de identidade do paciente. Para começar porque o torna devedor da pessoa da qual se origina o órgão. Nas sociedades humanas, presentear envolve uma reciprocidade que garante a dignidade igual dos participantes na transação.Receber implica retribuir, de uma ou de outra forma. Os transplantes de órgãos e tecidos sublinham a questão do sacrifício, do preço simbólico a ser pago pela restauração de uma saúde mais propícia, no caso a recuperação de um rosto menos danificado, mais aceitável socialmente e, se possível, parecido com aquele que foi amputado.Se viver desfigurado é um sofrimento sem fim que dilacera o eu, é compreensível que o paciente escolha um sentido, mesmo que haja o risco de que o preço a pagar seja muito elevado. Além das severas restrições que a medicação diária contra a rejeição imporá, é preciso compreender que o rosto restaurado não será igual ao rosto perdido, e é preciso manter a lucidez quanto às questões de identidade, a ambivalência possível diante de um rosto marcado pela ambigüidade.

David le Breton é antropólogo e professor na Universidade Marc Bloch, em Estrasburgo (França). É autor de "Adeus ao Corpo" (Papirus) e "Des Visages" (Rostos, ed. Métailié), entre outros livros. A íntegra deste texto foi publicada no "Libération".Tradução de Paulo Migliacci.

A FACE NOVA DA ÉTICA
OPERAÇÃO DE TROCA DE ROSTO SINTETIZA UMA ERA QUE PASSA POR BRUSCAS MUDANÇAS DOS PADRÕES DE RECONHECIMENTO E IDENTIDADE

RENATO JANINE RIBEIRO
Uma mulher tem seu rosto mais que desfigurado, praticamente destruído. Tradicionalmente, um cirurgião plástico iria recompô-lo. Mas, sem nariz, sem orelhas, se torna possível esculpir qualquer face. Sim, o médico poderia tentar reconstituir o original, como os arquitetos europeus fizeram com as cidades arrasadas durante a Segunda Guerra Mundial, erigindo uma Frankfurt, uma Roterdã "fakes". Qual a diferença então entre refazer o que sumiu e desenhar algo novo? E se, como agora aconteceu na França, o rosto novo da mulher for o rosto bem preservado de alguém que morreu?Adianto que não vejo grandes problemas éticos nessa história. Fez-se mal a alguém, com a viva herdando o rosto da morta? Temos uma tradição já bem consolidada de transplantes. Transplantar um coração, quase 40 anos atrás, tornou célebre o cirurgião sul-africano Christian Barnard e causou um choque, tal o simbolismo ligado àquele órgão. Depois disso, transplantou-se quase de tudo. Mas transferir um rosto tem algumas conotações distintas, que vale a pena salientar.Outra história pessoalOs transplantes que vemos com bons olhos são aqueles necessários, os que atendem a demandas de saúde. Sem coração, sem rim, sem medula, morre-se. Mas o rosto, não. Embora esse caso de cirurgia plástica não fosse estético, mas de plena necessidade, fica a idéia de algo exagerado. Não se podia, apenas, corrigir? Exagero, essa é a palavra.O rosto porta nossa identidade como poucas outras coisas. José Dirceu, perseguido político, passou por uma operação, que modificou seu nariz. A voz dele é inconfundível, mas a face a desmentia. O episódio francês nos choca, porque mexe no que é mais fundo na identidade de alguém.Se a moda pega, isso propicia que uma pessoa tome o lugar de outra. Lembra o filme "O Segundo Rosto", de John Frankenheimer. Há o perigo de que criminosos se beneficiem disso. Mas, ao mesmo tempo, as técnicas convencionais de cirurgia já permitem um mascaramento bastante eficaz. Então, qual a novidade nisso?A novidade está em assumir uma identidade alheia, pronta. Vêm fantasias à mente: e se um familiar da morta encontra a sua sucessora? Ou mesmo, como as pessoas próximas da mulher viva vão sentir o fato de que ela assumiu um rosto que tinha dona, história, documentos? As fronteiras se perdem, assim, entre o habitual e o assustado.Mas, mesmo assim, há problema ético nisso? Melhor dizendo, o mero fato de uma pessoa assumir as feições de outra é, por si só, problemático eticamente? Será condenável, concordo, se ela roubar o rosto de outra; se usar desse recurso para fugir à lei; mas notem que nesses casos o que é condenável não é ter um novo-velho rosto, e sim aquilo para que se mudou o rosto. Em outras palavras, o que torna uma ação condenável não é a mudança de identidade aparente, que não passa de um meio; é o fim para o qual essa modificação está sendo utilizada.Porque mudar o rosto, apenas, não causa mal a outrem. Pode causar choque, mas não mal. Ora, um dos aspectos mais significativos de nosso tempo é esse: muita coisa nos choca, sem que necessariamente seja má.Piercing, tatuagem, roupas esquisitas, isso causa mal-estar a muita gente, mas não lhes causa mal. Mal-estar não é mal. Mas nossa reação automática, assustados com um filho que usa brinco, com uma filha que se tatua, é entender que nosso mal-estar é um mal praticado pelo outro. Não há, porém, razão nenhuma para adotar essa postura.Crise de um modeloAs identidades estão mudando. Um século atrás, a média de idade girava em torno dos 30 ou 35 anos. Dobrou, de lá para cá. Isso significa que passamos a ter tempo de sobra. No entanto não tiramos todas as conseqüências disso. Somente a discussão da contribuição previdenciária trata dessa questão e trata mal, apenas avaliando custos e ganhos.Na verdade, o que se desfaz é um modelo de vida, pelo qual se casava ao redor dos 20 anos, tinha-se filhos, dos quais se cuidava, trabalhava-se, chegava-se à aposentadoria e, após mais alguns anos, se morria.Esse modelo não funciona mais. Depois da aposentadoria, é possível viver 40 anos. Aí vem a grita: aposentemos mais tarde. Mas não é essa a questão, e sim que, depois de criar os filhos, de curtir os netos, ainda há vida inteligente. É possível viver muito tempo (o que dizem os calculadores da Previdência Social), mas com qualidade (o que pouco se discute). Isso significa que podemos mudar de vida, várias vezes.Casamentos se desfazem, que duraram 20 ou 30 anos: valeram mais tempo do que muito matrimônio de 1900, em que o marido ou a mulher morriam antes dos 40 anos de idade. Não é um fracasso um casamento que foi terno enquanto durou.Empregos desaparecem, o que nos assusta, mas profissões surgem também, e com elas novas oportunidades. Uma pessoa pode ter várias identidades profissionais ao longo da vida; pode ter algumas parcerias amorosas duradouras e preciosas; pode até, no quadro da União Européia (e espero, um dia, no Mercosul), mudar de nacionalidade. Serei italiano por 20 anos, inglês por 15, alemão nos dez seguintes, espanhol até o fim da vida.Mudar de rosto não é mudar de identidade? Depois da operação francesa, ouvi receios, mas quase todos eles baseados na idéia do que o outro acharia da pessoa com nova face. E ela mesma, o que achará? O que sentirá, ao ver-se no espelho, não com um rosto reconstituído, mas com feições prontas, completas, que ela sabe terem tido uma história? Este poderia ser o começo de um conto, que pelo menos aqui não escreverei.Mas é um sinal a mais de um mundo que nos coloca oportunidades novas, algumas delas assustadoras, das quais porém não nos desvencilhamos condenando-as em nome de uma ética apressada. A ética é importante demais para se confundir com o medo diante do novo.

Renato Janine Ribeiro é professor de filosofia da USP e diretor de avaliação da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do MEC).

Les femmes de Virginia Woolf - Vanessa Curtis


Olá, foi lançado nesse mês esse livro na França, parece-me interessante...
envio abaixo o resumo.
abraços,
Cristina.

Editions Payot Septembre 2007Traduit de l'Anglais par Karine LaléchèreOutre le génie littéraire de Virginia Woolf (1882-1941), sa vie et sa personnalité fascinent. À travers ces dix portraits de femmes – parentes, amies, rivales ou amantes – émerge un être différent de la caricature trop souvent proposée. On découvre à ses côtés une soeur taciturne (Vanessa Bell), une artiste énigmatique (Dora Carrington), un écrivain complexe (Katherine Mansfield), sans oublier l’aristocratique Vita Sackville-West et la compositrice Ethel Smyth. La question de la féminité préoccupait Virginia : elle l’a explorée sans relâche dans une oeuvre peuplée de figures subtiles et obsédantes souvent inspirées par ses proches. Avec " ses " femmes elle pouvait se montrer d’une intransigeance absolue, car si son exigence intellectuelle était grande, sa demande affective ne l’était pas moins.La figure maternelle trop tôt disparue n’a jamais cessé de hanter cette romancière qui souhaitait pourtant s’affranchir des valeurs victoriennes. Au-delà de Virginia Woolf, c’est la fin d’une époque et le début d’une autre qui se dessinent derrière ces portraits de femmes artistes, tout à la fois prisonnières de leur éducation et désireuses de rompre avec le modèle traditionnel de l’" ange du foyer " pour se consacrer à leur art.Cofondatrice de la Virginia Woolf Society of Great Britain, Vanessa Curtis coédite aujourd’hui le Virginia Woolf Bulletin. Elle a publié en 2005 un livre sur les maisons de l’écrivain.Vanessa CurtisVanessa Curtis a fait des études musicales à Londres avant d’entamer une carrière de journaliste. En 1998, elle a été cofondatrice de la Virginia Woolf Society of Great Britain, et elle coédite aujourd’hui le Virginia Woolf Bulletin. Elle a publié en 2005 un livre sur les maisons de Virginia Woolf.http://www.payot-rivages.fr/asp/fiche.asp?Id=5571

segunda-feira, 24 de setembro de 2007